Velha infância e seu fantasma presente

11 setembro, 2026 - 12h00

Por algum motivo as pessoas não conseguem sequer criar um ambiente acolhedor para uma criança, não digo sobre brinquedos caros, apenas sobre como lidar com as emoções mesmo. Eu por exemplo, não aprendi a sequer nomear os mais simples sentimentos, tudo era um emaranhado de sensações e como adulto funcional (talvez nem tanto) tudo é uma grande epifania. Descobri depois de adulto que aquele vazio no peito, que ao mesmo tempo parece apertar o coração com todas as forças se chama angústia, acredita?

É angústia ou infarto? pode ser gases também viu?

É muito estranho quando você percebe que depois de adulto, sua infância possivelmente tenha sido desamparada. Não julgo meus pais e minha família por isso, estava todo mundo aprendendo (poderiam ter aprendido um pouco mais antes de eu nascer? sim, me ajudaria bastante, mas lidamos com o que tivemos) e agora eu tenho que aprender sozinho coisas que poderiam ser mais fáceis quando criança.

Ainda sinto todos os sentimentos, mesmo que as vezes eu não consiga nomeá-los, só que é inegável que identificar facilitaria muito a estabilizar tudo o que se passa comigo. Graças a falta disso, qualquer sinal de desequilíbrio, me torno um robô, cumpro minhas obrigações mas me perco na vida e minha mente se torna um grande vazio.

Onde você vai quando fica em silêncio?

Quando a gente não sabe fazer as coisas, como num trabalho manual por exemplo, tem-se duas opções: Aprender na marra ou sentar e não fazer nada por se achar incapaz. Isso é normal, todos nós temos uma diferente forma de lidar com a vida. Existem pessoas que se falarem que precisa de ajuda pra construir uma casa, mesmo não sabendo nada, vão colocar suas roupas mais surradas e no outro dia, tal qual um servente de pedreiro hiper experiente, com anos de profissão, estará te ajudando como se fosse a pessoa mais experiente no mundo. Isso não é FODA? Queria muito ser assim, porém estou no outro lado da moeda.

Tenho amizades que são verdadeiros pedreiros na hora de me auxiliarem, principalmente em questões de saúde mental, assim como de prontidão faço de tudo pra ajudar em tudo que precisarem, principalmente quando estão mal psicologicamente. Não meço esforços de jeito nenhum… Porém, quando preciso ser mestre de obras da minha própria construção, paraliso e simplesmente não reajo.

Como a gente lida com isso? de onde vem essa força interna? será que é um trauma diferente que eu não passei? será que é um traço de personalidade que alguns têm e outros não? Talvez algum dia eu tenha essa epifania e o segredo do universo caia no meu colo como um gato sedento por carinho. Até lá, não há muito o que fazer além de seguir o que as pessoas te recomendam.

”Tenha um hobby”, ”Ocupe a mente com um livro”, “Saia mais”, “Dê valor ao que tem, tem gente que não tem nada”, “Conheça novas pessoas”, “Tenha um problema de verdade”

No final o que fica é só você e o seu silêncio, esperando que alguma hora passe a temida anestesia mental. Que seu cérebro pare de associar desequilíbrios ao fim do mundo e que um dia ruim seja só mais um dia ruim.

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