O modo no qual fui criado tem como filosofia principal agradar a todos. Consequentemente, me colocando de lado. Com isso, aprendi a ouvir e interagir conforme o ambiente. Meu cérebro criou pequenos hacks de comportamento, quase como receitas sociais de convivência. De forma mais clara: se o ambiente pede algo, sirva aquilo! Vivi tantos anos assim que me reduzi até não ter voz ou saber me comportar de forma mais espontânea e segura comigo mesmo. Porém, nesses últimos meses (talvez um ano), algo no meio do caminho se quebrou e eu finalmente virei a chave: não devo e nem quero agradar a todos.
Permita-se ser mal visto!

Foi a partir dessa mudança que hoje, muitas vezes, consigo sem problema algum, dizer quando quero ou não quero fazer algo. Esse é o poder do “NÃO” no qual nunca fui ensinado a usar. (Um terror quando você é “educado” a agradar a todos como se sua vida dependesse disso). Não há espaço pra ser mal visto ou desagradável.
Analisando isso, não posso mentir e dizer que não acho tragicômico minha vida ter sido tão mais difícil por conta disso. Preferia sumir e não ser visto a dar uma simples percepção negativa sem a necessidade de uma justificativa. Afinal, mesmo com justificativas, as pessoas só querem comentar o que as desagradaram e não o possível motivo daquilo ter acontecido.
A parte ironicamente cômica, veio ao descobrir que essa via não é de mão dupla. Ou seja, eu precisava agradar a todos, mas recebia o que estavam dispostos a me dar, e muitas vezes, não eram coisas agradáveis. Isso criou uma questão que sempre voltava a minha mente:
Por que os outros podem ser desagradáveis o tempo todo, mas você não?
Essa dinâmica criou marcas e cicatrizes psicológicas profundas pela forma que fui tratado no passado, principalmente pela minha família. Isso não significa que sejam pessoas ruins (com ressalva de um ou outro) e eu até entendo que os tempos eram outros, as vivências diferentes e os conhecimentos não eram os que temos acesso hoje. Mas é inegável que me criaram de uma forma em que eu sempre sairia machucado. Essas cicatrizes foram se acumulando e juntando com a percepção de que ninguém nunca estava me defendendo de injustiças ou situações desconfortáveis, mesmo eu sendo tudo o que esperavam de mim.
Você precisa se cuidar, porque ninguém vai fazer isso por você!

Tudo isso me tornou uma pessoa impaciente e muitas vezes direta com os outros, era a forma de me blindar de mais situações ruins. Perdi completamente o filtro da doçura e do carinho (Na real, acho que nunca tive esse filtro por conta do ambiente no qual cresci). Na minha mente, algumas falas soavam naturais, uma conversa comum; Para os outros, pareciam socos sendo disparados desnecessariamente.
Por sorte, sempre fui uma pessoa com uma facilidade em fazer os outros rirem e carinha de anjo (pelo menos era o que me diziam quando criança) que todo mundo amolecia o coração. Era carismático o suficiente para ser querido por muitos mesmo sendo direto e com falas que por muitas vezes eram consideradas sem filtro nenhum.
Isso me gerou uma certa paz com as injustiças, tenho que confessar, porém a dualidade dentro de mim era enorme, porque as pessoas me achavam tão grosso sendo que eu só estava respondendo de forma objetiva? Era sempre um choque ao ouvir um “Nossa!” depois de uma fala que pra mim era ok. Mas ao mesmo tempo, fui tendo amizades que no fim, me aceitavam da forma que eu era.
Foi assim que aprendi e construí parte da minha personalidade. Estava agradando pessoas que eram carinhosas comigo, que gostavam de mim e de certa forma, mesmo não sendo perfeito, estavam do meu lado por livre e espontânea vontade. Essas pessoas que ousaram romper a minha barreira social estavam dispostas a me amar independentemente de como eu era. Isso me tornou uma pessoa mais doce, carinhosa e leal. Pelo menos é o que eu acho que sou, afinal, nossa percepção do que somos é diferente de como outras pessoas nos veem.
Isso tudo me trouxe a percepção que tenho hoje, todos nós estamos suscetíveis a julgamentos e momentos desagradáveis, todos querem sempre o melhor de você, mas nunca querem te oferecer o melhor. Todos somos assim, todos nós criamos formas de lidar com a vida e com os outros. Alguns são como eu, só que ao extremo, se dão a característica de “personalidade forte”, outras, dançam conforme a música, sendo flexíveis e muitas vezes beirando a dualidade na personalidade (É impossível você não conhecer alguém que fala mal de fulano mas quando está perto dele é só coisas boas e sorriso no rosto). Se analisarmos a fundo, todo mundo achou ou está procurando uma forma diferente de se expressar e ser visto no mundo.
Minha jornada até aqui não foi a das mais fáceis, muitas crises de ansiedades durante meu progresso, por mais que o assunto seja bobo e simples. Ainda assim não estou no meu ponto mais preparado e talvez nunca esteja, tem muito chão pela frente, mas com o amor que recebo, fica fácil dar às pessoas a versão de mim que elas merecem. Não preciso agradar a todos, só quem eu amo. Não preciso justificar ou ter justificativa pra tudo, ta tudo bem ser direto e desagradar às vezes.

Ainda peço desculpas quando percebo que me passei, comunicação não é meu forte. Foram anos de conflitos internos para que eu entendesse e aceitasse que está tudo bem que as pessoas tenham uma visão deturpada de mim. Nem sempre vou ser a melhor pessoa, mas estou sempre tentando ser o melhor que posso e consigo ser naquele momento, mesmo que eu seja mal visto por alguém.





