Não é novidade dizer a essa altura, que sou a ovelha negra da família. Somos opostos em quase tudo: nas vivências, nas linhas de pensamento e na forma de enxergar a vida. Como um estranho no ninho, às vezes encaro a minha própria

existência como um grande mistério. Por que eu seria tão diferente da minha família, se em mim não habita nenhum desejo de ser diferente? Eu não escolhi ser assim.
Eu só sou.
Talvez ser seja, também, uma forma de demonstrar que não me importo com as expectativas dos outros. E é isso que tenho visto em Luana Piovani nos últimos anos: uma mulher que, na minha infância, foi destruída pela mídia a torto e a direito por não se moldar ao padrão das mulheres da época e que, ainda hoje, é comum ver pessoas a odiando simplesmente porque ela viveu a vida em seus próprios termos, sem se curvar a ninguém.
Mas talvez o que mais me faça olhar para ela não seja apenas a provocação. Seja a forma como ela parece lidar com os próprios erros. Luana erra. Como qualquer pessoa erra. Ela já se envolveu em polêmicas, disse coisas que geraram revolta e precisou ouvir críticas. Em alguns momentos, reconheceu que errou e pediu desculpas. Em outros, entendeu que a conversa já havia se esgotado e decidiu dar um basta.
Com isso, vejo nela uma liberdade que me fascina: a de ocupar espaço sem pedir licença, de provocar sem se desculpar, de existir sem se transformar em uma versão mais aceitável de si mesma e de reconhecer os momentos em que se passou.
Ela parece não temer o desconforto que sua presença pode causar. Fala o que pensa, coloca os dedos em feridas, discorda, provoca e não parece disposta a se amaciar para agradar. Em um mundo em que todos acabam sempre pertencendo às mesmas tribos, ela transita pelos ambientes como alguém que não precisa de aprovação para existir.
E talvez seja aí que eu encontre algo para aprender com ela: a capacidade de assumir um erro sem se transformar em refém dele. Pedir desculpas quando a culpa é real, mas não passar a vida inteira pedindo perdão por uma falha que já foi reconhecida.
Existe uma diferença entre se responsabilizar e se punir para sempre. A primeira é maturidade. A segunda, muitas vezes, é apenas a exigência de que alguém permaneça pequeno o suficiente para caber na imagem que os outros fizeram dele.
Talvez a liberdade dela não esteja em nunca errar. Talvez esteja em não se esconder depois de errar.
Eu também quero aprender isso. Quero ser capaz de olhar para os meus erros sem me transformar neles. Quero pedir desculpas quando for necessário, reparar o que puder reparar e, depois, seguir existindo sem carregar a culpa como se ela fosse a minha única identidade.
Talvez seja isso que eu tenha observado tanto nela: a possibilidade de ser o ponto fora da curva sem pedir desculpas por isso. Isso me traz um certo conforto, como se eu pudesse apenas viver, sem precisar me moldar constantemente para caber. Ser a ovelha negra sem me importar com isso.
Ultimamente, nada tem me impelido a ser algo que não quero ser. Aprendi a falar sem papas na língua, mesmo sabendo que isso pode gerar desconforto. Desconforto esse que dificilmente me afetará. Afinal, o incômodo que os outros sentem com o que eu digo talvez tenha menos a ver comigo e mais com aquilo que, em algum momento, fizeram comigo.
Ainda assim, sei que a liberdade também pode me levar por caminhos tortuosos. Como viver em sociedade quando a falta de paciência ou de filtro pode me afastar das pessoas? Não se trata de me tornar alguém insuportável, um trator de ódio que atropela todo mundo sem se importar. Mas ser direto em um mundo onde tudo precisa ser amaciado para evitar conflitos é desgastante.
Não se trata de falar para ferir. É sobre não me calar para agradar.
A liberdade pode ser bonita de longe. De perto, talvez ela também seja feita de solidão, não quero confundir liberdade com isolamento. Não quero me fechar tanto que ninguém consiga me alcançar. Porém, também não quero continuar me diminuindo só para que os outros se sintam confortáveis.
Talvez exista uma solidão que nasce do medo e outra que nasce da escolha. A primeira acontece quando a gente

desaparece para não incomodar. A segunda, quando a gente decide que prefere estar só a continuar sendo uma versão editada de si mesmo.
Talvez eu veja nela aquilo que ainda estou aprendendo a permitir em mim: a possibilidade de ser a ovelha negra sem tentar, a cada momento, provar que também sei ser aceitável. A liberdade pode ser isso: aceitar que nem toda porta permanecerá aberta quando você decidir entrar como você é.
A solidão é o preço de algumas escolhas. Mas existe algo pior do que estar só: continuar em lugares onde a sua existência precisa ser constantemente reduzida para que os outros se sintam bem.






