Desde os meus 20 anos, tem sido estranho parar pra me observar. Me sinto imensamente atrasado para a vida, pessoas estão conquistando inúmeras coisas enquanto eu, a passos de bebê, estou aprendendo a viver. Certo dizer que cada um tem o seu tempo, que tempo é relativo e que tudo acontece no seu devido momento. Mas em mim, parece não haver um distanciamento tão grande entre a melancolia que paralisa e o medo de viver coisas novas.
Já pensou em tratar isso na terapia?

Tentei terapia duas outras vezes na minha vida, uma por ser uma criança extremamente emotiva e medrosa, outra, pelo mesmo motivo que entrei desta vez: ansiedade social e depressão profunda. Porém é engraçado de se pensar que por muito tempo, mesmo a depressão e ansiedade social sendo os motores principais da minha imensa espiral de saúde mental, o que de fato me levou a terapia foi um relacionamento tóxico.
Quando você observa relacionamentos tóxicos a distância, tudo parece ser fácil de resolver, são coisas simples, um “não” já é o suficiente e um término é mais que necessário para encerrar tudo de ruim. Entretanto, quando se esta nele, é diferente, você não consegue sair! Tem o amor incondicional disfarçado muitas vezes de co-dependência emocional, a necessidade de resolver os problemas pra tudo ficar bem, a vontade de ser a melhor pessoa possível... uma lista que vai se estendendo até você estar no fundo do poço e perceber que terapia é mais que o essencial.
Como você sabe que o culpado não é você?
Não me acho a pessoa mais preparada ou a mais correta, porém sei que fui a única que tentou sem atribuir a culpa ao outro o tempo todo! É super comum em um relacionamento tóxico você escolher passar tudo sozinho inconscientemente pois não quer que ninguém ao seu redor sequer sabia o que esta passando. É preciso manter a imagem da outra parte o mais limpa possível e foi aqui morou o meu erro, me sufoquei e deixei de existir novamente e tudo virou um trauma maior, só que por outros motivos.
Entre erros e acertos da minha parte (talvez muito mais erros do que acertos), o término foi um alivio, confesso. Porém, trouxe a tona algo que eu não fazia ideia, eu precisava aprender a lidar com rejeição e falta de amor próprio! Talvez, pela minha própria sobrevivência (e isso não é uma metáfora)… Substitui uma dor, pela outra e lembrei que eu ainda tinha a ansiedade social pra enfrentar e usei isso de combustível.
Não sei de onde tirei forças mas fui ao Rock in Rio. Fiquei no meio de uma multidão, um terror! Inseguranças, um vazio no peito, vontade de chorar em espaçamentos cada vez mais curtos, tal qual uma contração uterina. 3 dias vivendo um pesadelo onde me sentia julgado o tempo todo, mas eram tantas sensações e conflitos que isso foi soterrado. No fim, sobrevivi.


Depois de alguns meses me senti renovado, com a mente me dizendo que eu poderia fazer muitas coisas, e fiz, não coisas grandiosas, porém, coisas mesmo que pequenas, me moveram a algum outro lugar. Evoluí aos poucos, um passo de bebê por vez.
Vivi relacionamentos rápidos, me magoei, devo ter magoado algumas pessoas, mas aprendi os meus limites e a não me
colocar onde eu não estou cabendo. O contexto disso tudo é que eu mudo, como qualquer outra pessoa, evoluo naturalmente, me entendo um pouco mais na terapia, as vezes só a faço de lugar de desabafo. Só que no final, bem no fundo, eu me emociono de saber que eu não preciso hoje de um medicamento pra ter uma vida um pouco mais leve. Que hoje, um relacionamento ruim talvez seja só um relacionamento ruim e que sim sou merecedor de amor vindo de mim e pra mim.





