
Não é segredo que o período eleitoral é um pesadelo enorme pra quem se encaixa em qualquer grupo minorizado, principalmente nesses últimos anos. Enquanto alguns tratam com desdém qualquer tipo de assunto político, outros precisam lutar como se sua vida dependesse disso. E muitas vezes, dependem.
Vivemos diariamente o medo de sair na rua e talvez não voltar: cadeia pela cor, violência pelo gênero, caixão pelo amor. O pavor provocado por alguns candidatos e exaltado pelos seus eleitores rompe a barreira do discurso, daquilo que não pode nos alcançar, é incapaz ou fictício demais pra ser real. A insegurança de existir se torna cada vez mais latente, tão certo quanto abrir os olhos ao acordar. A única coisa que nos ajuda a sentir um pouco mais seguros é o amor e sendo parte da comunidade LGBTQIAPN+, passei a reparar mais no mundo ao redor:
Todos nós estamos na busca incessante de um amor incondicional, que nos faça moradia, lar.
Algumas pessoas têm a sorte de encontrar logo de cara, e confesso que me desperta uma certa inveja. Outros vão de relacionamento em relacionamento, tentando se encontrar e em muitos casos, acabam se destruindo no caminho.
Essa necessidade pelo amor incondicional pode vir de um outro lugar…
Talvez venha da família. Nós gostaríamos de ter esse abrigo primeiramente em casa, é o que nos é ensinado, em livros, filmes, histórias… Matilda encontrou uma família em sua professora, foi a única que deu atenção e amor quando a família de sangue só pensava em dinheiro, status social e vaidade. Talvez seja por isso que a gente passe a vida procurando, em outras pessoas, o abrigo que deveria ter encontrado primeiro em casa.

Essa reflexão fica mais clara quando coloco em minha realidade. Em alguns momentos específicos do ano é comum vermos publicações de mães apoiando seus filhos. Elas declaram seu amor, enfrentam comentários, aprendem, se posicionam e lutam ao lado deles. Isso me aquece o coração, mesmo que não tenha porque eu receber esse tratamento, eu não preciso.
É mais fácil dizer que não precisamos de algo do que admitir que passamos a vida esperando por aquilo.

Não precisava, até este último domingo! Depois do resultado do primeiro turno, essa falta deixou de ser abstrata. Um peso todo desabando nos meus ombros novamente. Não era apenas por conta do resultado de uma eleição. Era medo de existir, medo de ser quem eu sou, medo de sair de casa e talvez nunca mais voltar, medo pelas minhas amigas, amigos, familiares e conhecidos… medo do futuro!
Pela primeira vez em anos, quase com um instinto materno, desejei ter um abraço de mãe onde pudesse depositar tudo aquilo. Queria ouvir: “Estou com você. Vamos passar por isso juntos.” O calor de um abraço apertado que só uma mãe consegue dar enquanto tudo ao seu redor parece ruir. E sei que poderia correr para os braços dela. O abraço estaria lá o calor estaria lá. Porém logo em seguida, provavelmente viriam palavras que já ouvi em outras ocasiões: “Nada vai mudar”, “As coisas vão continuar iguais”, “Você ta exagerando! Pode ficar calmo”.
Por mais que essas frases possam nascer de uma tentativa de me tranquilizar. Elas não me acolhem. Elas diminuem o tamanho do medo que sinto, descartando qualquer dor em mim como se fosse algo muito menor do que realmente é, me invalida como se eu fosse incapaz de enxergar a realidade e estaria alucinando com medos bobos em minha mente. Como se eu ainda fosse uma criança com medo de bicho papão.
Foi então que percebi que não precisava apenas de um abraço. Eu precisava que alguém reconhecesse o motivo pelo qual eu estava com medo. Precisava de validação! O abraço existiria de qualquer maneira, mas a dor compartilhada não. Haveria carinho, mas também distância. Haveria cuidado, mas não a disposição de compreender o que significava viver sendo quem eu sou em um mundo que tantas vezes transforma a minha existência em ameaça.
Talvez essa seja a diferença entre ser amado e sentir-se protegido pelo amor.
Essa vontade serviu de elucidação para como eu me sentia. Me fez voltar a memórias que eu sequer lembrava a existência: Pequenas frases e comentários feitos, silêncios que pareciam inofensivos, olhares e “conselhos” que foram se acumulando dentro de mim ao longo dos anos.
Felizmente nunca fui expulso. Nunca deixaram de cuidar das minhas necessidades materiais. Nunca faltou um teto, uma comida ou um presente. Mas também nunca fui defendido em voz alta. Nunca houve uma briga comprada por mim. independentemente do assunto, eu estava sozinho, sufocando choros que precisavam ser abafados pra que não passassem vergonha.
Não faltou necessariamente amor. Faltou um amor que soubesse se posicionar e me defender dentro do meu próprio lar.
Talvez seja por isso que tantas pessoas busquem desesperadamente um amor que seja lar. Não porque sejam incapazes de ficar sozinhas, mas porque passaram tempo demais tentando sobreviver em lugares onde nunca puderam descansar completamente.
Eu, como tantos outros, queria que a minha família fosse esse lugar. Ser visto e amado sem precisar explicar por que

certas palavras me ferem, porque certos posicionamentos me atingem profundamente. Queria que o meu medo não fosse tratado como exagero. Queria que alguém segurasse a minha mão e dissesse que não precisaria enfrentar tudo sozinho.
Esse acolhimento talvez nunca chegue e existe um luto específico em perceber que a família que temos pode nunca se tornar a família que precisamos. Do que adianta conforto material, se eu trocaria muito disso por uma família que me amasse em voz alta, sem vergonha, sem silêncio e sem distância.
Talvez no fundo, lar seja justamente isso: o lugar onde a nossa existência não precisa ser defendida o tempo todo. Por isso buscamos nos outros algo que nos torne visto.





